PISTACHE GANACHE
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arqueologia da fumaça

arqueologia da fumaça

 
 

esquadrão do bolso

Tempos sombrios tomaram conta das Ilhas Tártharus no corifeu das terras camaronesas. Durante décadas, o tirano Macedo -notável pela sua baixa estatura e voz anasalada, e seu temperamento infértil e procrastinador- proibiu a realização, consumo, apreciação, divulgação, veiculação ou manipulação de quaisquer forma de arte ou expressão artística. Michel Macedo Maia, também conhecido como Petit Michel, considerava ARTE em toda a sua abrangência, complexidade e metafísica, um mal contumaz para o desenvolvimento e formação do intelecto espiritual, seguindo os preceitos e dogmas de sua religião: o Analfabetismo. 


A população das Ilhas Tártharus, que respondem carinhosamente pela alcunha Tárthus, sempre foi grande apreciadora de arte em todas as suas manifestações: da música clássica, com nomes como o soprano Myguel Semar, ao ragatanga de Susana Fogonella; performance, artes plásticas, escultura, cinema, teatro, todos os vieses desta manifestação considerada o néctar da sociedade tarthuana, na manhã do dia 23 de setembro de 1940, eram considerados crime inafiançável. Com uma canetada, Petit Michel, tornou a vida dos moradores das Ilhas Tártharus, menos alegre, menos bela; tornou mais difícil expressar o inexprimível, vivenciar o inexplicável, ou traduzir palavras que não conseguem ser ditas. Todos os mecanismos de expressão foram destruídos e proibidos sob pena capital: lápis, caneta, papel, violão, gaita, flauta, cinzel, martelo, câmeras fotográficas, telas de projeção, LIVROS! “QUEIMEM TODOS OS LIVROS!”.  De repente, o sorriso da população sumiu, o semblante recrudesceu, e sem explicação, o discurso do pequeno ditador encontrou audiência, e reverberância, e suas regras, antes criticada pela maioria, aos poucos foi sendo repassada de geração para geração. E o pequeno Michel assim acabou a arte nas Ilhas Tártharus.


Assim ele imaginava. Durante décadas, a arte foi subjugada e combatida dogmaticamente pelo Esquadrão do Bolso, com seus uniformes de grandes bolsos, para carregar todo o material apreendido. Realizavam batidas surpresa em casa abandonadas, ateliers antigos, e lojas de artes afim de confiscar qualquer material que pudesse causar indevidamente a proliferação de criação artística. Livros, quadros, pinturas, esculturas, pincéis, lápis, e qualquer outro material que pudesse causar reflexão artística eram reunidos e incinerados em fogueiras cujas labaredas podiam ser vistas por todas as cidades, durante as semanas.  Mal sabiam que essas labaredas acenderam pequenas chamas artísticas de questionamento e resistência, incomodados com o silêncio das ruas, com a falta de sorrisos, e ausência completa de pensamento crítico; a insurgência artística nasceu dessas chamas, do carvão reminescente da queima de seus materiais artísticos, que posteriormente serviria de matéria prima para lápis, primordial ferramenta dos desenhistas. Das chamas, às cinzas, a arte encontra subterfúgios para existir. 


Neste traço de carvão, quase rupestre, a arte encontrou refúgio para renascer no submundo da sociedade tárthariana, os criminosos da época eram aqueles que, com suas próprias mãos, criaram suas próprias ferramentas, escondidas, camufladas, disfarçadas, ilegais, porém necessárias para a prática artística. A vida acontece pelas frestas.